Dr. Richard Andrei Marquardt – Cirurgia Geral e Bariatrica

Como cirurgião geral e dedicado em cirurgia de hérnias da parede abdominal, considero fundamental esclarecer à população que hérnia não é apenas um “caroço na barriga” ou um detalhe estético após uma cirurgia.

Trata-se de um problema de saúde real, com risco de complicações potencialmente graves, e que na grande maioria dos casos necessita de correção cirúrgica.

Entre os diversos tipos de hérnia da parede abdominal, a hérnia incisional merece destaque pela sua frequência e pelas dúvidas que ainda geram nos pacientes.


O que é uma hérnia incisional?

A hérnia incisional ocorre no local de uma cirurgia abdominal prévia.

Sempre que realizamos uma cirurgia por corte na barriga — seja uma cesariana, retirada de vesícula , cirurgia intestinal de urgência, ginecológica ou qualquer outro procedimento — é necessário fazer uma incisão (corte) na parede abdominal.

hérnia incisional de cicatriz

Hérnia Incisional em cicatriz prévia de cirurgia intestinal de urgência

Essa parede é composta por pele, tecido subcutâneo, músculos e uma estrutura chamada aponeurose (ou fáscia), que é a camada responsável por dar resistência e sustentação.

Após a cirurgia, o organismo inicia um processo de cicatrização.

No entanto, por diversos fatores, essa cicatriz pode não adquirir a mesma resistência do tecido original.

Quando há o enfraquecimento dessa região, pode ocorrer uma abertura na musculatura, permitindo que gordura interna ou até mesmo alças intestinais passem por esse defeito. Isso é a hérnia incisional.


Por que a hérnia incisional acontece?

A formação de uma hérnia incisional é multifatorial. Entre os principais fatores de risco estão:

  • Infecção na ferida operatória
  • Obesidade
  • Tabagismo
  • Diabetes mal controlado
  • Tosse crônica
  • Esforços físicos precoces no pós-operatório
  • Idade avançada
  • Desnutrição
  • Cirurgias de grande porte ou de urgência

Mesmo quando todos os cuidados são seguidos corretamente, ainda assim existe um risco inerente à cicatrização.

Estudos mostram que até 20% das cirurgias abdominais podem evoluir com algum grau de hérnia incisional ao longo dos anos.


Quais são os sintomas?

O sintoma mais comum é o aparecimento de um abaulamento (inchaço) no local da cicatriz cirúrgica.

hérnia incisional de cicatriz mediana

Esse abaulamento pode aumentar ao tossir, rir, fazer força ou permanecer muito tempo em pé.

Outros sintomas incluem:

  • Dor ou desconforto local
  • Sensação de peso na região
  • Alterações estéticas importantes
  • Dificuldade para realizar atividades físicas

Em casos mais graves, pode ocorrer encarceramento ou estrangulamento da hérnia.

Isso acontece quando o conteúdo que saiu (como uma alça intestinal) fica preso e não consegue retornar para dentro da cavidade abdominal.

Nessa situação, há risco de interrupção da circulação sanguínea do intestino, podendo evoluir para necrose, perfuração intestinal e infecção generalizada. Trata-se de uma emergência cirúrgica.

É por isso que reforço: hérnia não é algo que deve ser ignorado ou tratado apenas com cinta abdominal. É um defeito estrutural que não se corrige sozinho.


Hérnia incisional pode piorar com o tempo?

Sim. E isso é extremamente importante.

Hérnias incisionais tendem a aumentar progressivamente. O defeito na musculatura pode se alargar, tornando a cirurgia futura mais complexa. Quanto maior a hérnia:

  • Maior o tempo cirúrgico
  • Maior o risco de complicações
  • Maior a necessidade de próteses (telas) maiores
  • Maior o impacto funcional e estético

Em casos avançados, parte significativa do conteúdo abdominal pode permanecer fora da cavidade (o que chamamos de “perda de domicílio”), dificultando a reconstrução e aumentando os riscos cirúrgicos.

Portanto, adiar o tratamento raramente é uma boa decisão.


Existe tratamento que não seja cirurgia?

Não. A hérnia incisional é um defeito anatômico da parede abdominal. Não há medicação, exercício, fisioterapia ou uso de faixa que feche esse defeito.

Cintas e faixas podem até oferecer alívio temporário dos sintomas, mas não tratam a causa do problema. Pelo contrário, o uso prolongado pode mascarar o crescimento da hérnia e atrasar o tratamento adequado.

O único tratamento definitivo é o reparo cirúrgico.


Como é feita a cirurgia?

A cirurgia para hérnia incisional tem evoluído muito nas últimas décadas. Atualmente, dispomos de técnicas modernas que permitem reconstruir a parede abdominal com segurança e resultados duradouros.

Tela de polipropileno usada para reforçar o músculo .

De forma geral, o procedimento envolve:

  1. Identificação do defeito na musculatura
  2. Retorno do conteúdo herniado para dentro do abdome
  3. Reforço da parede abdominal com uso de tela cirúrgica (prótese)

A tela é um material biocompatível que funciona como um reforço estrutural, diminuindo significativamente o risco de recidiva (retorno da hérnia).

É importante esclarecer que a tela não é um “corpo estranho perigoso”, como muitos pacientes temem. Quando bem indicada e corretamente posicionada, ela é fundamental para um reparo seguro e duradouro.


Cirurgia aberta ou por laparoscopia?

O tipo de abordagem depende de diversos fatores:

  • Tamanho da hérnia
  • Localização
  • Cirurgias prévias
  • Condições clínicas do paciente
  • Presença de múltiplos defeitos
  • Grau de complexidade

As técnicas minimamente invasivas (laparoscopia e cirurgia robótica) oferecem benefícios como menor dor pós-operatória, menor risco de infecção da ferida e recuperação mais rápida em casos selecionados.

Já hérnias grandes e complexas podem exigir técnicas reconstrutivas avançadas, incluindo separação de componentes da parede abdominal, sempre com planejamento individualizado.

Cada paciente deve ser avaliado de forma criteriosa por um especialista em cirurgia de parede abdominal.


A cirurgia é perigosa?

Toda cirurgia envolve riscos. No entanto, quando realizada de forma planejada, em ambiente adequado e por equipe experiente, a correção da hérnia incisional é um procedimento seguro.

O que muitas vezes é mais perigoso do que a cirurgia é a evolução natural da hérnia sem tratamento. O risco de encarceramento e estrangulamento intestinal pode levar a cirurgias de urgência, que são sempre mais arriscadas do que procedimentos eletivos e programados.

Planejamento é sinônimo de segurança.


Como é a recuperação?

A recuperação varia conforme a complexidade do caso. Em hérnias menores, o paciente pode retornar às atividades leves em poucos dias. Já em reconstruções maiores, o período de recuperação pode ser mais prolongado.

Algumas orientações gerais incluem:

  • Evitar esforços físicos intensos por algumas semanas
  • Manter controle rigoroso de doenças como diabetes
  • Suspender o tabagismo
  • Controlar o peso corporal
  • Seguir corretamente as orientações médicas

A adesão às recomendações pós-operatórias é fundamental para reduzir o risco de recidiva.


A hérnia pode voltar?

Sim, existe risco de recidiva. No entanto, com técnicas modernas e uso adequado de telas, as taxas de retorno diminuíram significativamente.

Fatores que aumentam o risco de recidiva incluem:

  • Obesidade
  • Tabagismo
  • Infecção pós-operatória
  • Esforços excessivos precoces
  • Doenças que aumentam a pressão abdominal crônica

Por isso, o tratamento da hérnia não é apenas cirúrgico: ele envolve também otimização clínica do paciente.


A importância da avaliação especializada

A hérnia incisional não deve ser subestimada. Ela compromete a integridade da parede abdominal, pode gerar dor, limitação funcional, impacto psicológico e, principalmente, risco de complicações graves.

O tratamento adequado exige avaliação individualizada, planejamento cirúrgico detalhado e técnica apropriada. A cirurgia de parede abdominal é uma área que evoluiu para um campo de subespecialidade justamente pela complexidade desses casos.

Procurar avaliação com profissional habilitado faz diferença nos resultados e na segurança do paciente.


Conclusão: hérnia é um problema sério de saúde

É fundamental que a população compreenda que hérnia incisional não é apenas uma questão estética ou algo que “dá para conviver”. Trata-se de um defeito estrutural da parede abdominal que tende a piorar com o tempo e pode levar a complicações potencialmente graves.

O único tratamento definitivo é cirúrgico. Quanto mais precoce for a avaliação e o planejamento, melhores são os resultados e menores os riscos.

Se você apresenta abaulamento na cicatriz de uma cirurgia abdominal, dor ou desconforto persistente na região operada, procure avaliação especializada. Cuidar da sua parede abdominal é cuidar da sua saúde como um todo.

Fonte : Sociedade Brasileira de Hérnias